quinta-feira, 26 de novembro de 2015

PROBIDADE E CORAGEM (VOLUME I)

Ainda não era eleitor, mas participei ativamente ao lado de tantos colegiais da época, eleitores e não eleitores, como eu, da campanha com vistas às eleições de 18 de agosto de 1963.

Isso já nos remete ao “Mercado 18 de Agosto”, inspiração de Amílcar da Mota Valença, nas suas andanças pelos Estados Unidos da América, trazida à então província de Garanhuns. 

Naquelas eleições (1963) ele se insurgia contra aqueles que se julgavam “donos” da cidade: prefeito, governador, presidente e deputados. Estes, só da cidade, três. De algures, indizíveis. “Vamos para Garanhuns derrotar aquele matuto insurgente”, diziam. Resultado: por ter traduzido os anseios da população “matuta” da cidade, tornou-se o seu prefeito apesar de todo aquele aparato político, que, nas ruas, se portava com arrogância, conquanto se julgava verdadeira “máquina eleitoral”. Imbatível.  De impossível enfrentamento. Por isso as ameaças explícitas no sentido de querer machucar, humilhar, subjugar e maltratar os homens e mulheres de bem de Garanhuns. A vitória do povo, no entanto, foi arrasadora. A derrota daqueles “poderosos” da época, acachapante.


Em 15 de Novembro de 1968, a vitória foi mais contundente ainda. Até pelas circunstâncias da época. Os generais e os coronéis não aceitavam o candidato lançado e apoiado por Amílcar da Mota Valença. Mas ele e o povo de Garanhuns o fizeram seu prefeito - Luiz Souto Dourado que era candidato pelo MDB. Portanto, partido de oposição aos governos do estado e da união. Luiz Souto Dourado tinha um grande defeito, diziam: “É que fora Secretário da Justiça do ‘comunista’ Miguel Arraes de Alencar.” Quem sabe se, por isso, os generais e os coronéis não o queriam e não o credenciavam para ser o nosso prefeito.

Em 15 de Novembro de 1972, muito mais pelos seus atos de bravura, de coragem e de independência política do que pela sua gigantesca obra, realizada no seu primeiro mandato, ele, Amílcar da Mota Valença é eleito prefeito de Garanhuns mais uma vez, porque, para ele, como para Mahatma Gandhi, passava em julgado princípios inalienáveis em política e porque, ainda, teria durante toda a sua vida se identificado com os ricos e com os pobres, com os brancos e com os pretos, com os letrados e com os iletrados da sua cidade. Prática que exercitava de forma muito tranquila e espontânea, a ponto de ter o respeito e admiração de comunistas da cidade, adversários seus, que chegaram a considerá-lo como o mais “comunista” dentre os políticos da sua época, por conta de sua efetiva proximidade e ação em defesa das camadas mais carentes de sua gente. E, também, por sua conhecida probidade frente ao erário público. 


O trabalho de Amílcar, nesse particular, bem que poderia servir de exemplo àqueles que fazem militância política, sendo, portanto, positivamente, intemporal.      
Em 15 de Novembro de 1976 ocorre quase uma repetição do que ocorrera em 1963 e em 1968. Amílcar da Mota Valença teve que repetir os seus gestos do passado e, de novo, com bravura, coragem e independência, contra um sistema organizado e orquestrado, elege como seu sucessor, um amigo, para quem, um dia, dera a palavra: Ivo Tinô do Amaral. Justamente ele que, como Amílcar, enfrentou o episódio histórico de 1963. Com isso, ratifica o seu respeito aos princípios de palavra, da honradez e de honestidade na política. 
Para as eleições de 2012, Amílcar da Mota Valença, também esteve ao lado do povo de Garanhuns, dando “não” àqueles que pensaram humilhar, subestimar e subjugar nossa cidade, impondo uma candidatura contra os nossos interesses e tradições.
Esses episódios da vida de Amílcar da Mota Valença o engrandeceram e me orgulham e, tenho certeza, também, a gente garanhuense. 
Como minhas filhas - suas netas, quero dizer: “Que  Deus  o abençoe! Foram 98 anos vividos intensamente.” 
A tudo isso, assisti de perto. Lá atrás, como simples colegial. Sequer eleitor, já o disse. Mais adiante, como eleitor. Militante político. E, depois, já como seu genro. Que trazia, como traz ainda, a ideia de que se deve ser, suficientemente, livre para discordar e concordar. A ideia de que política se faz conversando. Respeitando o contraditório. E tendo a felicidade de, um dia, um sonho lá do passado, fruto de muitas lutas e pedidos, ser realizado, como a rodovia que une a sede do Município de Garanhuns ao Distrito de São Pedro. Sonho que acalentou durante toda a sua vida, até porque, lá, viveu. Mas que deixou para a posteridade a tão sonhada rodovia, que não a conheceu, e que leva o seu nome: Rodovia Amílcar da Mota Valença.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

COMO REIS OU PRÍNCIPES REGENTES (VOLUME I)

Li no Jornal “O Columinho”, semanário de Garanhuns, edição 35, de 17.10.15, crônica do amigo Djalma Carvalho que trata do seu cotidiano em nossa cidade ao longo de sua última estada por esta “Cidade de Simôa”, durante o XXV Festival de Inverno de Garanhuns. 

Crônica para ler e tornar a ler. E, depois, ler novamente, tamanha a gostosura. E, sobretudo, o orgulho que nos confere por vivermos nesta cidade maravilhosa de Garanhuns.  

Penso que pelo teor de crônica, inspiração do Companheiro e Amigo, o imortal Djalma, ele teria conquistado corações dentre tantos garanhuenses que apreciam esse gênero literário. O cronista, sabe ele, é o mais livre de todos os redatores. Por isso que autêntico e sincero. E ele foi, positivamente, livre em suas linhas que textualizaram sua bela e encantadora crônica que encerra um verdadeiro hino de Amor à nossa “Suíça Brasileira”. Levando-nos a dizer, tenho certeza que em nome de tantos daqui: somos-lhe gratos pelas palavras. E que nos leva, ainda, a lembrar do grande Rubens Braga, que não quis ser outra coisa além de cronista. Quem sabe, até porque sabia, como o poeta, que o cronista é, sobretudo, um fingidor na acepção e na medida traçada por Fernando Pessoa: 

“Finge tão completamente, 
que chega a fingir que é dor. 
A dor que deveras sente.” 

O que Fernando quis dizer com sua assertiva? “Se um poeta pode fingir, mais fingidor ainda pode ser o cronista, que convive com o imediatismo do dia a dia”, na leitura de outro grande cronista, este, nosso, daqui, dos nossos sertões pernambucanos, de seu Pajeú, Magno Martins.  E, na minha modesta opinião: porque espontâneo. Absolutamente à vontade para contar o seu cotidiano, consoante seus sentimentos.  


Disse eu ao amigo Djalma: “Ocorre que essa conquista de que falei poderá ou irá conduzi-lo a irremediáveis demandas. Demandas de estar sempre voltando às nossas ‘Sete Colinas’. Colinas que, no passado, foram recantos de tantos apreciadores da boa literatura.” De onde procuravam inspirações como a que deu azo a lapidar sentença do Ronildo Maia Leite: 

‘O céu existe entre Sete Colinas.
 Garanhuns é de lá.’ 

Hoje, talvez nos faltem esses poetas cronistas entre nós, ou cronistas poetas entre a gente. Daí, com seu despertar - fui enfático a Djalma - a gratidão de Garanhuns. E Garanhuns gosta de ser grata com quem a reverencia. Por que não dizer? Com quem a ama.”
    


Na esperança de que Djalma e muitos outros Djalmas retornem à nossa cidade em breve, coloco-me ao dispor de todos eles, e da forma mais hospitaleira que o garanhuense pode, e deve, conferir a quem a admira. E deve. Pelos registros de suas crônicas e pelas impressões positivas sobre nossa cidade, tratá-los-ei como reis. No mínimo, como príncipes. Ou, ainda, já com expectativa de reis. Sim! Príncipes regentes. Mas, na certeza de que assim fazendo, tratando a todos, cosmopolitas ou limitados ao seu torrão, para nós que aqui vivemos, o que se sobressai são aqueles que nos veem com respeito, e tenham o mínimo de reconhecimento do que representamos no contexto das cidades belas do interior deste país, sabedores, antemão, que somos e continuaremos sendo, para sempre, a verdadeira “Suíça Brasileira”, título do qual não se abrirá mão, conquanto conferido pela natureza e pelo trabalho de anos dos homens e das mulheres garanhuenses.