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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

GOSTO DE SAMPA - BOM DIA I (04.09.2017) (VOLUME II)

Dia marcado para nosso regresso ao Recife, com decolagem prevista às 15 horas. Dia, portanto, de refazer as malas e começar a pensar na realidade que nos espera, em horas. 

Só com esta manhã de segunda-feira, manhã, inclusive que, já, já, se exaure, dando lugar ao começo de tarde, nada mais a fazer em São Paulo, além de ultimar nossa saída do hotel, e partirmos.

Viajar é sempre bom. Muito bom! Também penso assim, como a grande maioria dos amigos e amigas com quem converso. Na minha atividade profissional, todavia, viajar tem sido cada vez mais difícil, até pela minha natureza de querer estar vendo e estar à frente de tudo nos meus dias a dia. E eu teria inúmeras razões de estar sempre viajando, a começar porque tenho duas filhas e três netinhos que adoro. Além, claro, de dois genros que vivem longe, lá, na América do Norte. Ainda bem que Emília supre com suas constantes presenças as minhas ausências. 

Recolho-me um pouco. “Ficou triste, vovô? Quer ficar mais um pouco?”, perguntou-me meu netinho. “Não, Gui. Vovô não pode. Nós não podemos. Você, porque perde aula desde quinta-feira; vovô, porque tem tarefa a cumprir em Garanhuns e sua avó, porque está morrendo de saudade de casa. Afinal, faz um mês que ela está fora, viajando com suas tias”, respondi-o. “E esses papéis, vovô?”, pergunta-me. “São minhas anotações, Gui.” E aqui eu vejo José Lins do Rego dizer que “Viajar é muito bom, mas não viajar não é morrer.” Uma vez, Oliveira Lima, que era homem de muitas viagens, dizia que se fôssemos tomar o valor dos homens pelas viagens, teríamos que chegar à conclusão de considerar os grumetes como homens finos, e um Sócrates, que nunca saiu de sua cidade, um botocudo. “Vou explicar, Gui. Você ainda não tem obrigação de saber o que são ‘grumetes’ nem ‘botocudos’. ‘Grumete’ seria o que se poderia chamar de ‘marinheiro de primeira viagem’. Já ‘botocudo’ seria o que se poderia chamar de um ‘sujeito pouco civilizado’.”

“Mas vovô viaja muito. Estivemos, não faz um ano, em Brasília. Depois, passamos uma semana no Rio. Estivemos aqui em São Paulo, meses atrás. Estamos aqui de novo.” No que eu disse: “Certo, Gui. Certo! Mas vá dizer isso a sua avó.” 

“Agora, de uma coisa estou certo, Gui: pelo menos no que diz respeito a viajar, ganho de Sócrates. Entendeu Gui?”. “Mas claro vovô!”, disse-me. “Agora deixa eu te contar: nessa história de viagens, quem estava certo mesmo era Montaigne quando dizia em seus Ensaios que ‘Viajar é um exercício proveitoso. Nela, a alma se exercita.’ E a minha sinto que tem se exercitado muito bem. Sobretudo por sua companhia.” Ele, de pronto: “Agora o Senhor pegou pesado, vô!” 

sábado, 2 de setembro de 2017

GOSTO DE SAMPA - BOA NOITE I (02.09.2017) (VOLUME II)

“E aí, Gui? Que diz a nossa agenda?”, pergunto. “Vamos jantar em um restaurante tradicional. Vamos para o ‘Terraço Itália’. Lá, um espetáculo. Um deslumbre. Avista-se São Paulo do alto de 41 andares. Restaurante belíssimo. Já conferi tudo no Google. Vocês vão adorar. Fica lá na Avenida Ipiranga.” Tomei um susto com o discurso de Gui. “Menina! Que menino sabido!”, disse à Emília. 

“Já pediu o Uber?”, indago. “Já, vovô. Em cinco minutos ele estará aqui.” 

Realmente um encanto o Terraço Itália. Fino. E com um magnífico serviço. Realmente, irrepreensível. 

Lembrei à Emília: “Sempre desejamos conhecer o Terraço. Superveniências, todavia, não nos deixavam. E agora estamos aqui, com o nosso netinho.” No que ela me responde: “Foi bom assim, Givaldo. Como nossos filhos, eles sempre os primeiros.”

Na verdade, lá, em casa, fora assim: primeiro os meninos. Eles conheceram o exterior primeiro que a gente - eu e Emília. Givaldinho teria sido o primeiro. Foi estudar em Londres. E por lá ficou por quase um ano. A ideia era que voltasse falando a Língua Inglesa. E assim foi. Ano seguinte, Germana, também para Londres, lá morando durante quase um ano e meio. Por fim, Giovanna, que preferimos mandar para São Francisco porque, por lá, já estava Claudinha, nossa sobrinha. 

Voltamos ao Maksoud felizes e leves pela bela noite que tivemos. Os três: eu, Emília e nosso netinho. No lobby do hotel, Gui olha para mim e diz: “Vovô, o senhor não quer me contratar como seu assessor, não? Falo fluentemente inglês; já, já mandarim. Sou desenrolado em agendas e em Uber, e tenho bom gosto como o senhor. Enfim, posso lhe ajudar muito”. Tomei um susto. Mas segurei. E disse: “Fale com seus pais, Gui. Se eles permitirem, você estará contratado.” 

Que netinho Deus me deu! Obrigado, Senhor! 

GOSTO DE SAMPA - BOA TARDE I (02.09.2017) (VOLUME II)

Ainda no “Eldorado”. Que surpreendeu a mim e Emília. Pela conservação. Parecendo novinho em folha. Muitas lojas de marcas e inúmeros restaurantes de ponta. Finos! Finíssimos!

Adentramos no ‘Applebee’s’. Um espetáculo! Germana de lá, de São Francisco, a perguntar onde estamos por conta do instantâneo de horas atrás que enviáramos. “No Brasil, minha filha. Em São Paulo. Naquele shopping que você, ainda novinha, conheceu com a gente”. O mundo está cada vez mais plano. Penso: como era a vida dos pais e dos avós, antigamente, sem notícias de seus filhos e de seus netos? 


Pedimos... Na verdade, Gui. Ele, incrivelmente, internacional: “Strawberry Lemonade, Nachos Nuevos e Buffalo Chicken Wings”. Uma delícia!

Emília, coitada, só olhando porque, de jejum, desde cedo, para um exame de logo mais no Hospital Santa Catarina.

Passeamos por todo o shopping até quase final da tarde. Gui, insaciável: quanto mais andava e conhecia, mais queria andar e mais queria conhecer. “Vovô que shopping maravilhoso!”, disse-me. “Pois é, Gui. Para aqui, no passado, a gente vinha com seu pai e suas tias e por aqui passávamos quase todo o dia. Eles adoravam!”, eu lhe disse. “Ah! Será por isso que estou gostando tanto?” No que eu respondi: “Não duvido, Gui. Quando voltar, conte para seu pai que você passou por onde ele passara com suas tias quando novos. Ele vai ficar muito feliz! Mas Gui, vamos embora que já é tarde. Sua avó tem que passar no Hospital Santa Catarina e você ainda tem agenda para logo mais à noite.”, disse-o. “Verdade, vovô! Vamos ao Terraço Itália!”