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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

RUA DO RECIFE (30.10.2017) (VOLUME II)

Minha família morou na Rua do Recife por alguns anos. Antes, todavia, morou na Rua do Cajueiro. Em ambas as ruas, sob o mesmo número - 161. Mais tarde, e em definitivo, minha família mudou para a Rua Dantas Barreto, também sob o mesmo número - 161. 

A primeira rua, contudo, em que minha família morou em Garanhuns não tinha o nome de Rua. Chamava-se, como se chama, ainda hoje, de Praça Dom Pedro II, lá no bairro da Boa Vista. 

Meus pais, com toda a família, chegaram a Garanhuns, procedentes da vizinha cidade de Correntes. Eu, ainda nos braços de minha mãe, e com dois meses de idade. Pouco tempo depois, fui levado à Pia Batismal, para receber o sacramento do batismo, ministrado pelo Pe. Matias, então pároco da Igreja de São Sebastião.    
  
Da Rua do Recife, guardo algumas recordações. Dos nossos vizinhos e da Escola de Dona Geraldina em que estudei até o então terceiro ano primário, já que no final deste, e uma vez aprovado no exame de admissão ao Colégio Diocesano, lá, não fizera o quarto - nem lá, nem em outra Escola, porque no ano seguinte dei início ao primeiro ano do então curso ginasial.

Quem não gostou dessa armação fora Dona Geraldina Miranda. Ainda em mim, vaga lembrança: “Menino, como você conseguiu essa façanha?” - teria ela me perguntado. Ao que teria eu respondido: “Estudei em duas Escolas de referência em minha cidade: a de Dona Dulcina e a de Dona Geraldina.”

Lembro-me, ainda, que, naquele tempo, eu procurei saber, mas sem dizer nada a ninguém - meus pais, Dona Dulcina, Dona Geraldina... Ninguém! Como se daria o exame de admissão ao Colégio Diocesano. Responderam-me: “Simples! Você se inscreve, paga uma taxa e enfrenta o exame. Se passar... Bem, se passar, no começo do ano que vem você procura a Secretaria do Colégio, faz sua matrícula, e começa o primeiro ano de seu curso ginasial.” E assim fiz. Sem contar nada a ninguém. Nem mesmo a meu irmão mais velho - Geraldo. Bem mais velho do que eu - 14 anos.

Quando me vi aprovado naquele exame é que contei da minha façanha à minha família. Primeiro, a meu irmão Geraldo. E fi-lo, não sem antes lhe fazer um pedido: ir comigo aos nossos pais e a eles contar o que teria ocorrido, dizendo-lhes do meu esforço à aprovação do referido exame. Ah! Como me lembro! Foi uma festa. Todos ficaram felizes e, eu, sentindo-me glorificado.

Na Rua Dantas Barreto fora onde mais pontificamos, enquanto crianças. Residência espaçosa. Dona de um grande quintal e florido jardim. Ali, eu e meus irmãos mais novos brincávamos e éramos felizes. 

Ainda me lembro de meus brinquedos. Ou, na verdade, o meu único brinquedo que, com ele, ficava boa parte do dia a vagar pelo amplo quintal, sobretudo nos períodos de férias escolares: uma lata de doce cheia de areia era o meu carro, e lá ia eu percorrendo as pistas do quintal de Dona Eulália, minha saudosa mãe. 

Aos seus jardins, praticamente não tínhamos acesso, tamanho o seu ciúme às suas roseiras. Dizia-nos sempre: “Jardim sem roseiras não é jardim.” E delas, minha mãe cuidava pessoalmente. Era tarefa intransferível. Só a ela cabia fazê-lo. Com suas roseiras, falava. Com suas roseiras, era feliz. Tudo levando a crer haver uma cumplicidade entre minha mãe e suas roseiras. Que estavam sempre bonitas e coloridas.   

sábado, 19 de agosto de 2017

DIA TRISTE (15.11.2016) (VOLUME II)

Acordei com dificuldade hoje. “Que indisposição me toma! Que vontade de ficar nesta caminha gostosa até... Bem... Até eu conseguir abrir o outro olho e recuperar minha disposição. Eu pareço que não sou eu!”, dizia-me. “Acaba com isso, Givaldo. Hoje é feriado. Hoje, 15 de novembro. Não te diz nada? Nada? Nadinha? Não gosto desse dia. Para mim, dia da ingratidão. Da covardia. Da traição. E, dessas, não gosto. Detesto mesmo.”, cravava minha mente. 

Meu Deus, estou delirando. Mas, por quê? Por que será?

Acordo. Percebo que ainda flui a madrugada. Sinto que só um dos meus olhos está aberto. Já, já, verei o nascer do sol pela janela entreaberta, querendo assustar e afugentar minha indisposição. O outro parece pedir mais um pouco de repouso. Até por minhas compulsivas e vorazes leituras, noite adentro. Só um? Só um deles? Na verdade, os dois. Ouço ruídos e cânticos que vêm da rua. De repente, barulho. Barulho de carro de som. “A campanha não já terminou? Os votos não já foram apurados? Já não se sabe quem foram os eleitos? Estes não já festejaram suas vitórias? Por que esse barulho? Ensurdecedor barulho... Por que esses cânticos? Por quê?”, fico a perguntar. Sinto, todavia, alguém responder: “É a procissão que vem lá da Boa Vista, do Magano... Que se encontrou na Matriz de Santo Antônio e, em seguida, peregrina em direção ao Santuário da Mãe Rainha - Três Vezes Admirável. E você, Givaldo, prometeu que lá iria. Portanto, levanta, sacode a poeira... E vamos à peregrinação!”, sussurram-me no meu ouvido. “Mas claro! Mas claro! Agora me lembro. Tenho que ir a procissão”, digo-me, em atenção aos sussurros.  

Levanto-me com a ideia fixa de que tenho que partir à procissão e, depois, à luta do dia a dia. No que pese os delírios no transcorrer da madrugada. 

Ingresso na procissão. Esqueço que o trabalho me chama. Mas hoje, 15 de novembro, é feriado. E feriado nacional. Ah! Fixo-me só na procissão. Nos seus cânticos, e, como todos, começo a cantar. Digo-me: “Procissão, sim. Feriado, não. Deles não gosto. Muito menos desse, que pegou carona.” 

Na procissão, vejo que as ruas ainda estão cobertas de névoas como amanheceram. E, por cima, cinzentas e feias. Mas, no entanto, tudo bonito, lindo e belo. Afinal, estamos em Garanhuns. 
Lembro que já, já, é dezembro. E que minha cidade já vive a beleza do Natal Luz 2016. Que este ano já começou em 11 de novembro e vai até 06 de janeiro de 2017. Será que, por isso, estamos percorrendo as ruas e avenidas da cidade para receber as bençãos da Mãe Rainha, pergunto-me.    

Penso, peregrinando: “Hoje, 15 de novembro. Dia, ainda hoje, triste para mim e para milhões de brasileiros. Triste pelo que fizeram naquele fatídico 15 de novembro de 1889. Que, lá na frente, resolveram consagrar na carona de outro dia - 21 de abril de 1789, este, sim, grande dia. Um bonito dia. Em louvação a um ideário. Por que, não? Ideário legítimo. Puro. Até ingênuo. Mas com substância. Com razão de ser. Sobretudo quando sabemos que nosso estado corrupto nos leva 2/5 do que produzimos e, lá, no longínquo 21 de abril de 1789, levavam 1/5. 

Sempre digo aos meus botões: 15 de novembro - dia do golpe. Da injustiça, perpetrada contra Dom Pedro II, um grande brasileiro